Gustavo, quanto você tá gastando?

Update: o post a seguir considera valores de dólares da época (ah que nostalgia!). Mesmo assim, vale notar que o dólar aumentou muito para vários países. 

No início desse texto, vou mostrar um número grande e você vai abrir a boca e falar: “meu deus, Gustavo realmente assaltou as velhinhas na porta da igreja e não quer abrir o jogo”. Logo depois, vou publicar o que eu recebi nesse tempo e como “anulei” esses gastos e você pode chegar à conclusão de que “ei, pera, acho que também posso fazer isso aí”. É o que eu espero. Como já disse anteriormente, viajar não é necessariamente caro. Depende dos seus objetivos, regiões pelas quais quer passar e como quer viajar, principalmente no que se refere a (parafraseando Dilma) conforto. A pergunta mais proferida precisa de resposta. E como muitos outros blogues de viagem fazem, “abrirei minha planilha”.

Antes de tudo, é importante deixar claro que esse dinheiro foi um investimento. Enquanto uns preferem comprar o carro do ano, eu prefiro ter experiências pelo mundo durante esse tempo. As duas pós-graduações que fiz anteriormente e que tiveram um preço altíssimo no meu orçamento não me ensinaram nada que chegue perto ao que eu tenha aprendido aqui. Viajar por um longo tempo também é uma abertura para que você repense sua vida e estude determinados assuntos por conta própria – e aí você faz uma espécie de “universidade ambulante”. Mas vamos às contas.

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Um ano viajando

Não, não quero voltar ainda. Faz exatamente 384 dias em que eu saí do Rio para enfrentar o mundo, sem muitos planos e uma rota desenhada superficialmente. Aqui vão algumas estatísticas:

Tempo: 384 dias, ou 1 ano e 19 dias, ou 55 semanas, ou 9216 horas, ou 552.960 minutos, ou 33.177.600 segundos.

Distância percorrida: aproximadamente 55.000 km (já é mais que uma volta à Terra, que tem a circunferência de 40.075 km!).

Transporte: na maioria das vezes, ônibus (mesmo na Europa), mas peguei ao todo 5 voos curtos e baratos.

Comida: odeio cozinhar. Então costumo comprar coisas fáceis de fazer ou sair pra comer, uma das grandes falhas no meu orçamento. Sempre aceito quando alguém se dispõe a cozinhar. ;)

Acomodação: um pouco de tudo. Casa de amigos ou de pessoas que conheço no caminho, couchsurfing, dormitórios em albergues, aluguel de quartos (Airbnb). Acampar, só quando não tem outro jeito.

Países: nesta viagem, 25 países até agora.

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Um bom cenário

Svaneti, na Geórgia, pode ser um conto de fadas. Pode ser um épico, uma coisa algo Game of Thrones, Zelda ou Senhor dos Anéis. Não pode ser uma história de amor, uma novelinha melodramática, nada disso, não. Lá há montanhas ao redor dos vilarejos e elas são enormes e opressivas. Veja só, ficam entre 3 e 5 mil metros e rodeiam os vales como leões de chácara, defendendo o território dos penetras. Os carros Lada dos anos 70 adicionam uma certa decadência soviética às já desgastadas torres medievais que também fazem parte do cenário. As estradas são de terra, na maioria. Estão molhadas com o tempo úmido e a aguaceira que desce do degelo, o primeiro aviso de que o verão vem vindo e que começa por volta de abril.

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Hangloose chinês

Oito

Oito

A China é um planeta a parte. E é claro que os gestos feitos com as mãos tinham que ser completamente diferentes. O que não dá pra imaginar é que até os gestos ligados a números também são. Por exemplo, faça um hangloose. Pois isso que você está vendo é um “seis”.

Agora, a imagem aqui do lado. Parece um “dois”, mas não é. Explicando: o símbolo 八, que lembra a marca do Atari, significa “oito”. Então vamos à aulinha de mandarim de hoje, porque cultura inútil nunca é demais.

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As tribos do Vale do Omo (parte 2)

Leitura: 10 minutos. O post é continuação da parte 1.

A aldeia começou a se mover toda para uma outra parte do vale. Fomos acompanhando. No caminho, as mulheres conversavam e mesmo todo o sangue e as cicatrizes não abafavam o clima leve de festa entre o grupo. Depois de cerca de 15 minutos chegamos a outro local, um platô arenoso cercado de árvores. Um grupo de homens trazia os touros para o centro do espaço. Nesse tempo, as mulheres continuaram a se aproximar dos mais jovens em provocação. E, em retorno, mais chicotadas e feridas abertas. Alguns turistas demonstravam querer desistir e uma senhora parecia se sentir mal. Sentou-se aos pés de uma árvore para se recuperar. Nesse momento, alguma alma bondosa parou para me explicar – até então não tinha lido muito a respeito e fui pego de surpresa.

A cerimônia do salto aos touros é um ritual de iniciação dos homens Hamar. A partir deste dia, podem se casar, por exemplo. Apenas um deles era o alvo da comemoração, que é, grosso modo, o que é o bar-mitzvah para os judeus. O adolescente tinha cabelo longo e cortado estranhamente só na parte da frente – a parte de trás do cabelo, levantada, excêntrica como um pavão. Chegou completamente nu, ao contrário dos outros. As mulheres da família (irmãs, mãe, primas, amigas e até avós) que desejarem mostrar seu amor pelo “debutante”, devem então fazer o tal jogo, oferecendo-se para receberem chicotadas. Quanto maior a implicância e a coragem dessas mulheres, maior é a demonstração de amor pelo parente que será, agora, considerado um adulto. Para isso, elas usam uma corneta feita de chifre de touro, mais estridentes que uma vuvuzela, mais enlouquecedoras que o cuteleiro da sua esquina. Também cantam e dançam com sinos amarrados nos pés, ao redor do gado desnorteado, tentando mantê-lo em círculo.

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As tribos do Vale do Omo (parte 1)

Leitura: 7 minutos.

O triângulo formado pelas fronteiras entre Etiópia, o recém-formado Sudão do Sul e Quênia é um dos lugares étnica e culturalmente mais diversos do mundo. Tribos como os Bodi (Me’en), Daasanach, Karo, Kwegu (ou Muguji), Mursi, Nyangatom, Hamar, Chai e Turkana dividem os já escassos recursos do baixo Omo para agricultura, pesca e pecuária de subsistência. Apesar da pobreza extrema, as diferenças culturais atraem gente do mundo inteiro interessada no que há de mais exótico. Sim, há turistas.

Rotas no Vale do Omo

Rotas no Vale do Omo

Antes de ir à Etiópia, entrei em um fórum e arrematei mais dois viajantes para ir comigo, um australiano e uma canadense. Cheguei em Addis Ababa, a capital, deixei minhas coisas no hotel e fui rodar a cidade. No caminho, parei um sujeito loiro de olhos azuis que parecia um pouco perdido. Sabia que falava inglês. Perguntei se sabia onde comprar um cartão para o celular, precisava ligar para outros viajantes. Respondeu que também estava procurando. No caminho, nos apresentamos. “Peraí, seu nome é Gustavo? Eu sou o John, o australiano do fórum”.

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Hospitalidade russa

Eu, na minha santa ignorância, achava que os russos seriam muito frios e pouco hospitaleiros. Pois viajar serve pra destruir esses mitos. Ontem os donos do albergue em Sochi, a tal cidade que recebeu os últimos jogos de inverno e que já tem enormes elefantes brancos mofando, enfim, os donos me chamaram para sua casa antes que fosse embora. A mulher, descalça, usava um cordão de flores na cabeça e falava comigo como se eu tivesse estudado anos de russo e entendesse absolutamente tudo. O marido, sentado à mesa, fazia contas e deslizou os cadernos para o canto ao me ver entrar. Enquanto os dois faziam coisas na cozinha pediram pra eu me sentar.

Trouxeram chá e um prato de mini-panquecas com uma espécie de sour cream e carne. Comentei que estava uma delícia e eles responderam que compraram pronto no supermercado. Enquanto comíamos, deixei cair a carne da panqueca na xícara de chá. Tentei bebê-lo assim mesmo, mas a carne moída não harmonizou muito bem. Levantei-me e fui à cozinha jogar fora a bebida e a mulher veio atrás para fazer outra. Pedi desculpas e ri. Sentei novamente e o marido me ajudava a escolher os próximos destinos.

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Ierevan, cidade das artes

A capital da Armênia é uma das cidades mais antigas do mundo, tendo cerca de 2780 anos de história. Com suas influências persas, otomanas, soviéticas e europeias – as duas últimas mais gritantes – é ainda subestimada por muita gente. Antes de ir, ouvi muitos viajantes dizendo: “ah, é só mais uma cidade, fiquei lá um dia apenas e voltei”. Talvez por isso não tenham aproveitado.

Com aparência persa, leia-se narizes alongados, sobrancelhas bem delineadas, olhos amendoados, pele clara, parece não haver armênio que não se sinta bem em uma das centenas opções de cafés, sebos e galerias de arte. Sentados em grupos, olham o movimento da cidade, saboreando mais um café, mais um cigarro – e como fumam! – e o tempo passa leve na capital, sem ferir as almas. A música ambiente é um lounge, a versão chata da sua música preferida, que às vezes dá espaço a algum rock alternativo mais palatável.

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Meu aniversário em Teerã

Cheguei a Teerã de madrugada. Comprei um cartão de celular no próprio aeroporto e entreguei-o para o taxista entender como chegar à casa do meu anfitrião. No caminho, trocamos ideias em inglês e espanhol. Antes de virar taxista, Farhad tinha vivido em outros países. Atentei para o fato de que ele começou a viver na Espanha em 1982, pouco depois da Revolução de 1979 e a Guerra entre o Irã e Iraque, mas não tivemos tempo de aprofundar a história. Pooria me esperava às 5 da manhã na porta de casa, com seu celular à mão, bermuda e chinelo. Sorriu e acenou quando viu o carro virar a esquina. Mostrou-me a casa espaçosa rapidamente, o “meu” quarto e sentamos para conversar um pouco antes de dormir. Já amanhecia. Pooria acabava de voltar de uma festa, sentia já um pouco da ressaca que o atacaria no dia seguinte.

– Pode beber aqui, é?
– Não, mas todo mundo bebe.

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Daniela Mercury, a Grande

Era o ano de 330 AC. Foi com sangue nos olhos que Alexandre, O Grande, invadia, destruía, queimava e roubava sem pudor a famosa joia do deserto, que os gregos nomearam como cidade dos persas, Persépolis. O nome original: تخت جمشید Takht-e Jamshid (“o trono de Jamshid”).

Contou-me um comerciante local que a história segue assim. Chegando ao topo da montanha mais próxima, o imperador riu, soberbo. Falava sozinho, especulando sobre seus novos títulos. Passava a mão sobre a barba, pensativo: “xá da Persia… ou xá da Ásia. Alexandre Magno, xá da Ásia. Gosto disso!”. Gargalhou amalucadamente. Silenciou de súbito. Relembrou por instantes, vingativo, a destruição de tantas cidades helênicas. Seu rosto se fechava, exibindo olhos semicerrados e a arcada trincada à medida que seus pensamentos voltavam à acrópole em chamas.

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