Arte erótica em Khajuraho

Em um dia quente de 1830, uma expedição do engenheiro inglês T. S. Burt chegava a um pequeno vilarejo em Madhya Pradesh, um dos estados centrais da Índia – que, na época, ainda contava com as terras do atual Paquistão e Bangladesh. O pequeno grupo, além de provimentos básicos para os próximos dias, carregava alguns livros antigos de historiadores e de viajantes da região. Hospedaram-se na cidade de Chhatarpur com intenções de conhecer o vilarejo de Khajuraho. Ali, no meio daquele matagal, longe de qualquer centro urbano, devia haver um grupo de curiosos templos. Era o que diziam os relatos do marroquino Ibn Battuta, de 1335, por exemplo.

… perto dos templos, que contêm ídolos mutilados pelos muçulmanos, vive um grupo de iogues que deixam seus cabelos crescerem ao tamanho de seus corpos. E devido a esse ascetismo extremo, todos têm uma cor amarelada. Muitos muçulmanos visitam esses homens em busca de ensinamentos de ioga.

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Um bom cenário

Svaneti, na Geórgia, pode ser um conto de fadas. Pode ser um épico, uma coisa algo Game of Thrones, Zelda ou Senhor dos Anéis. Não pode ser uma história de amor, uma novelinha melodramática, nada disso, não. Lá há montanhas ao redor dos vilarejos e elas são enormes e opressivas. Veja só, ficam entre 3 e 5 mil metros e rodeiam os vales como leões de chácara, defendendo o território dos penetras. Os carros Lada dos anos 70 adicionam uma certa decadência soviética às já desgastadas torres medievais que também fazem parte do cenário. As estradas são de terra, na maioria. Estão molhadas com o tempo úmido e a aguaceira que desce do degelo, o primeiro aviso de que o verão vem vindo e que começa por volta de abril.

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Hangloose chinês

Oito

Oito

A China é um planeta a parte. E é claro que os gestos feitos com as mãos tinham que ser completamente diferentes. O que não dá pra imaginar é que até os gestos ligados a números também são. Por exemplo, faça um hangloose. Pois isso que você está vendo é um “seis”.

Agora, a imagem aqui do lado. Parece um “dois”, mas não é. Explicando: o símbolo 八, que lembra a marca do Atari, significa “oito”. Então vamos à aulinha de mandarim de hoje, porque cultura inútil nunca é demais.

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Hospitalidade russa

Eu, na minha santa ignorância, achava que os russos seriam muito frios e pouco hospitaleiros. Pois viajar serve pra destruir esses mitos. Ontem os donos do albergue em Sochi, a tal cidade que recebeu os últimos jogos de inverno e que já tem enormes elefantes brancos mofando, enfim, os donos me chamaram para sua casa antes que fosse embora. A mulher, descalça, usava um cordão de flores na cabeça e falava comigo como se eu tivesse estudado anos de russo e entendesse absolutamente tudo. O marido, sentado à mesa, fazia contas e deslizou os cadernos para o canto ao me ver entrar. Enquanto os dois faziam coisas na cozinha pediram pra eu me sentar.

Trouxeram chá e um prato de mini-panquecas com uma espécie de sour cream e carne. Comentei que estava uma delícia e eles responderam que compraram pronto no supermercado. Enquanto comíamos, deixei cair a carne da panqueca na xícara de chá. Tentei bebê-lo assim mesmo, mas a carne moída não harmonizou muito bem. Levantei-me e fui à cozinha jogar fora a bebida e a mulher veio atrás para fazer outra. Pedi desculpas e ri. Sentei novamente e o marido me ajudava a escolher os próximos destinos.

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Ierevan, cidade das artes

A capital da Armênia é uma das cidades mais antigas do mundo, tendo cerca de 2780 anos de história. Com suas influências persas, otomanas, soviéticas e europeias – as duas últimas mais gritantes – é ainda subestimada por muita gente. Antes de ir, ouvi muitos viajantes dizendo: “ah, é só mais uma cidade, fiquei lá um dia apenas e voltei”. Talvez por isso não tenham aproveitado.

Com aparência persa, leia-se narizes alongados, sobrancelhas bem delineadas, olhos amendoados, pele clara, parece não haver armênio que não se sinta bem em uma das centenas opções de cafés, sebos e galerias de arte. Sentados em grupos, olham o movimento da cidade, saboreando mais um café, mais um cigarro – e como fumam! – e o tempo passa leve na capital, sem ferir as almas. A música ambiente é um lounge, a versão chata da sua música preferida, que às vezes dá espaço a algum rock alternativo mais palatável.

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Meu aniversário em Teerã

Cheguei a Teerã de madrugada. Comprei um cartão de celular no próprio aeroporto e entreguei-o para o taxista entender como chegar à casa do meu anfitrião. No caminho, trocamos ideias em inglês e espanhol. Antes de virar taxista, Farhad tinha vivido em outros países. Atentei para o fato de que ele começou a viver na Espanha em 1982, pouco depois da Revolução de 1979 e a Guerra entre o Irã e Iraque, mas não tivemos tempo de aprofundar a história. Pooria me esperava às 5 da manhã na porta de casa, com seu celular à mão, bermuda e chinelo. Sorriu e acenou quando viu o carro virar a esquina. Mostrou-me a casa espaçosa rapidamente, o “meu” quarto e sentamos para conversar um pouco antes de dormir. Já amanhecia. Pooria acabava de voltar de uma festa, sentia já um pouco da ressaca que o atacaria no dia seguinte.

– Pode beber aqui, é?
– Não, mas todo mundo bebe.

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Daniela Mercury, a Grande

Era o ano de 330 AC. Foi com sangue nos olhos que Alexandre, O Grande, invadia, destruía, queimava e roubava sem pudor a famosa joia do deserto, que os gregos nomearam como cidade dos persas, Persépolis. O nome original: تخت جمشید Takht-e Jamshid (“o trono de Jamshid”).

Contou-me um comerciante local que a história segue assim. Chegando ao topo da montanha mais próxima, o imperador riu, soberbo. Falava sozinho, especulando sobre seus novos títulos. Passava a mão sobre a barba, pensativo: “xá da Persia… ou xá da Ásia. Alexandre Magno, xá da Ásia. Gosto disso!”. Gargalhou amalucadamente. Silenciou de súbito. Relembrou por instantes, vingativo, a destruição de tantas cidades helênicas. Seu rosto se fechava, exibindo olhos semicerrados e a arcada trincada à medida que seus pensamentos voltavam à acrópole em chamas.

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Internet no Irã

Publicar daqui do Irã não é fácil. Além das redes de wifi não serem das melhores, poucas coisas são liberadas para acesso pelo governo. Entre elas, Whatsapp, Viber, Skype e Instagram.

Já Youtube, Facebook, Twitter, WordPress (a base desse blog) e páginas de jornais internacionais, nem pensar. O jeito é instalar uma VPN, um processo fácil que faz com que seu acesso seja feito por servidores de outros países, mas que deixa a conexão ainda mais devagar. Descobri que o país dos rigorosos e barbudos aiatolás é também o que menos respeita suas próprias regras – de vestimenta, restrição de álcool e outras drogas, comportamento entre homens e mulheres ou pessoas do mesmo sexo, família, música, leis de trânsito, acesso à informação…

Com isso publicar no blog e viajar ao mesmo tempo é super possível mas extremamente difícil. Ao voltar a Teerã, onde a internet costuma a ser melhor, prometo novos textos e fotos. Histórias não faltam e o Irã é desses países cheios de surpresas e muito mal compreendido por quem está de fora (incluam-me entre os ignorantes). Não é um país “preto no branco”, como nenhum é, mas uma sociedade hipercomplexa, cheias de matizes, diferenças de crença, etnias e visões políticas.
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No momento, estou no verão de Isfahan, uma cidade moderna, agradável, mesmo com o calor, e com dezenas de prédios históricos, incluindo a segunda maior praça do mundo, Naqsh-e Jahan (só fica atrás da famosa Tiananmen, de Mao Tsé Tung, em Pequim). Em seguida sigo para o sul, Yazed, Shiraz, Persépolis e “vou-me embora pra Passárgada”, é claro, onde Ciro, O Grande, o primeiro grande líder do Império Persa, está enterrado. Depois é voltar pro norte e começar a preparar meus próximos vistos para Turcomenistão, Uzbequistão e por aí vai.

Então, uma pequena pausa forçada e até logo. Enquanto isso continuo publicando meia dúzia de fotos no Instagram (@gustborged), Facebook e Twitter. É o que tem pra hoje.

A lenda do camelo

Conheci Dagoberto na região de Afar, no deserto de Danakil (Etiópia), onde ele trabalhava carregando blocos de sal retirados do solo.

“Meus filhos, agora vou lhes contar a lenda do camelo. Há muitos anos atrás, o camelo também era um animal forte e esbelto como também hoje são os leões e os elefantes. Deus, então, deu ao camelo chifres como recompensa pelo seu bom coração.

Mas, um dia, quando o camelo descansava placidamente junto à água, um cervo pediu ao camelo para lhe emprestar seus chifres. Queria enfeitar-se para uma celebração no ocidente. O camelo não viu motivo para não confiar nele e emprestou-lhe os seus chifres. Mas o cervo nunca voltou e os devolveu.

Desde então, os camelos continuam a olhar para o horizonte à espera do seu regresso. Assim é, meus pequenos. Assim, tão grande, é o coração de um camelo”.

(lenda mongol, texto do filme Camelos Também Choram*)

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A casa da vó

Há muitas casas de vó por aí. E quando se viaja, vez ou outra você está lá de volta, na placenta da placenta. A dois fetos de distância, a matriarca da família Iguarán-Buendía oferece biscoitinhos e conselhos e obriga-o a agasalhar-se dentro de casa com cobertores velhos que certamente irão causar-lhe alergia.

Os panos da casa não combinam. Há um bicho de pelúcia gigante na sua cama, duro e vagabundo, arrematado em uma daquelas máquinas que pinçam brinquedos para crianças na vendinha perto de casa. O pobre urso cabisbaixo compõe o ambiente com uma colcha quadriculada, um tapete com motivos persas e uma almofada indiana com pequenos espelhinhos costurados no tecido e que arranham seu corpo levemente, o que o faz virar a almofada de cinco em cinco minutos. Cortinas são sagradas. O ambiente é levemente escuro. Vinho, marrom, verde-musgo, mas são o bege ou qualquer outra cor pastel os escolhidos para ocupar as grossas paredes da casa.

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