Um bom cenário

Svaneti, na Geórgia, pode ser um conto de fadas. Pode ser um épico, uma coisa algo Game of Thrones, Zelda ou Senhor dos Anéis. Não pode ser uma história de amor, uma novelinha melodramática, nada disso, não. Lá há montanhas ao redor dos vilarejos e elas são enormes e opressivas. Veja só, ficam entre 3 e 5 mil metros e rodeiam os vales como leões de chácara, defendendo o território dos penetras. Os carros Lada dos anos 70 adicionam uma certa decadência soviética às já desgastadas torres medievais que também fazem parte do cenário. As estradas são de terra, na maioria. Estão molhadas com o tempo úmido e a aguaceira que desce do degelo, o primeiro aviso de que o verão vem vindo e que começa por volta de abril.

Continuar lendo

As tribos do Vale do Omo (parte 2)

Leitura: 10 minutos. O post é continuação da parte 1.

A aldeia começou a se mover toda para uma outra parte do vale. Fomos acompanhando. No caminho, as mulheres conversavam e mesmo todo o sangue e as cicatrizes não abafavam o clima leve de festa entre o grupo. Depois de cerca de 15 minutos chegamos a outro local, um platô arenoso cercado de árvores. Um grupo de homens trazia os touros para o centro do espaço. Nesse tempo, as mulheres continuaram a se aproximar dos mais jovens em provocação. E, em retorno, mais chicotadas e feridas abertas. Alguns turistas demonstravam querer desistir e uma senhora parecia se sentir mal. Sentou-se aos pés de uma árvore para se recuperar. Nesse momento, alguma alma bondosa parou para me explicar – até então não tinha lido muito a respeito e fui pego de surpresa.

A cerimônia do salto aos touros é um ritual de iniciação dos homens Hamar. A partir deste dia, podem se casar, por exemplo. Apenas um deles era o alvo da comemoração, que é, grosso modo, o que é o bar-mitzvah para os judeus. O adolescente tinha cabelo longo e cortado estranhamente só na parte da frente – a parte de trás do cabelo, levantada, excêntrica como um pavão. Chegou completamente nu, ao contrário dos outros. As mulheres da família (irmãs, mãe, primas, amigas e até avós) que desejarem mostrar seu amor pelo “debutante”, devem então fazer o tal jogo, oferecendo-se para receberem chicotadas. Quanto maior a implicância e a coragem dessas mulheres, maior é a demonstração de amor pelo parente que será, agora, considerado um adulto. Para isso, elas usam uma corneta feita de chifre de touro, mais estridentes que uma vuvuzela, mais enlouquecedoras que o cuteleiro da sua esquina. Também cantam e dançam com sinos amarrados nos pés, ao redor do gado desnorteado, tentando mantê-lo em círculo.

Continuar lendo

As tribos do Vale do Omo (parte 1)

Leitura: 7 minutos.

O triângulo formado pelas fronteiras entre Etiópia, o recém-formado Sudão do Sul e Quênia é um dos lugares étnica e culturalmente mais diversos do mundo. Tribos como os Bodi (Me’en), Daasanach, Karo, Kwegu (ou Muguji), Mursi, Nyangatom, Hamar, Chai e Turkana dividem os já escassos recursos do baixo Omo para agricultura, pesca e pecuária de subsistência. Apesar da pobreza extrema, as diferenças culturais atraem gente do mundo inteiro interessada no que há de mais exótico. Sim, há turistas.

Rotas no Vale do Omo

Rotas no Vale do Omo

Antes de ir à Etiópia, entrei em um fórum e arrematei mais dois viajantes para ir comigo, um australiano e uma canadense. Cheguei em Addis Ababa, a capital, deixei minhas coisas no hotel e fui rodar a cidade. No caminho, parei um sujeito loiro de olhos azuis que parecia um pouco perdido. Sabia que falava inglês. Perguntei se sabia onde comprar um cartão para o celular, precisava ligar para outros viajantes. Respondeu que também estava procurando. No caminho, nos apresentamos. “Peraí, seu nome é Gustavo? Eu sou o John, o australiano do fórum”.

Continuar lendo

Hospitalidade russa

Eu, na minha santa ignorância, achava que os russos seriam muito frios e pouco hospitaleiros. Pois viajar serve pra destruir esses mitos. Ontem os donos do albergue em Sochi, a tal cidade que recebeu os últimos jogos de inverno e que já tem enormes elefantes brancos mofando, enfim, os donos me chamaram para sua casa antes que fosse embora. A mulher, descalça, usava um cordão de flores na cabeça e falava comigo como se eu tivesse estudado anos de russo e entendesse absolutamente tudo. O marido, sentado à mesa, fazia contas e deslizou os cadernos para o canto ao me ver entrar. Enquanto os dois faziam coisas na cozinha pediram pra eu me sentar.

Trouxeram chá e um prato de mini-panquecas com uma espécie de sour cream e carne. Comentei que estava uma delícia e eles responderam que compraram pronto no supermercado. Enquanto comíamos, deixei cair a carne da panqueca na xícara de chá. Tentei bebê-lo assim mesmo, mas a carne moída não harmonizou muito bem. Levantei-me e fui à cozinha jogar fora a bebida e a mulher veio atrás para fazer outra. Pedi desculpas e ri. Sentei novamente e o marido me ajudava a escolher os próximos destinos.

Continuar lendo

Ierevan, cidade das artes

A capital da Armênia é uma das cidades mais antigas do mundo, tendo cerca de 2780 anos de história. Com suas influências persas, otomanas, soviéticas e europeias – as duas últimas mais gritantes – é ainda subestimada por muita gente. Antes de ir, ouvi muitos viajantes dizendo: “ah, é só mais uma cidade, fiquei lá um dia apenas e voltei”. Talvez por isso não tenham aproveitado.

Com aparência persa, leia-se narizes alongados, sobrancelhas bem delineadas, olhos amendoados, pele clara, parece não haver armênio que não se sinta bem em uma das centenas opções de cafés, sebos e galerias de arte. Sentados em grupos, olham o movimento da cidade, saboreando mais um café, mais um cigarro – e como fumam! – e o tempo passa leve na capital, sem ferir as almas. A música ambiente é um lounge, a versão chata da sua música preferida, que às vezes dá espaço a algum rock alternativo mais palatável.

Continuar lendo

Meu aniversário em Teerã

Cheguei a Teerã de madrugada. Comprei um cartão de celular no próprio aeroporto e entreguei-o para o taxista entender como chegar à casa do meu anfitrião. No caminho, trocamos ideias em inglês e espanhol. Antes de virar taxista, Farhad tinha vivido em outros países. Atentei para o fato de que ele começou a viver na Espanha em 1982, pouco depois da Revolução de 1979 e a Guerra entre o Irã e Iraque, mas não tivemos tempo de aprofundar a história. Pooria me esperava às 5 da manhã na porta de casa, com seu celular à mão, bermuda e chinelo. Sorriu e acenou quando viu o carro virar a esquina. Mostrou-me a casa espaçosa rapidamente, o “meu” quarto e sentamos para conversar um pouco antes de dormir. Já amanhecia. Pooria acabava de voltar de uma festa, sentia já um pouco da ressaca que o atacaria no dia seguinte.

– Pode beber aqui, é?
– Não, mas todo mundo bebe.

Continuar lendo

Internet no Irã

Publicar daqui do Irã não é fácil. Além das redes de wifi não serem das melhores, poucas coisas são liberadas para acesso pelo governo. Entre elas, Whatsapp, Viber, Skype e Instagram.

Já Youtube, Facebook, Twitter, WordPress (a base desse blog) e páginas de jornais internacionais, nem pensar. O jeito é instalar uma VPN, um processo fácil que faz com que seu acesso seja feito por servidores de outros países, mas que deixa a conexão ainda mais devagar. Descobri que o país dos rigorosos e barbudos aiatolás é também o que menos respeita suas próprias regras – de vestimenta, restrição de álcool e outras drogas, comportamento entre homens e mulheres ou pessoas do mesmo sexo, família, música, leis de trânsito, acesso à informação…

Com isso publicar no blog e viajar ao mesmo tempo é super possível mas extremamente difícil. Ao voltar a Teerã, onde a internet costuma a ser melhor, prometo novos textos e fotos. Histórias não faltam e o Irã é desses países cheios de surpresas e muito mal compreendido por quem está de fora (incluam-me entre os ignorantes). Não é um país “preto no branco”, como nenhum é, mas uma sociedade hipercomplexa, cheias de matizes, diferenças de crença, etnias e visões políticas.
image

No momento, estou no verão de Isfahan, uma cidade moderna, agradável, mesmo com o calor, e com dezenas de prédios históricos, incluindo a segunda maior praça do mundo, Naqsh-e Jahan (só fica atrás da famosa Tiananmen, de Mao Tsé Tung, em Pequim). Em seguida sigo para o sul, Yazed, Shiraz, Persépolis e “vou-me embora pra Passárgada”, é claro, onde Ciro, O Grande, o primeiro grande líder do Império Persa, está enterrado. Depois é voltar pro norte e começar a preparar meus próximos vistos para Turcomenistão, Uzbequistão e por aí vai.

Então, uma pequena pausa forçada e até logo. Enquanto isso continuo publicando meia dúzia de fotos no Instagram (@gustborged), Facebook e Twitter. É o que tem pra hoje.

Você é tão bonitinho

Gregos em geral são pessoas muito sinceras e calorosas. E eu tô me segurando pra não rir alto. Um viajante estava saindo agora do albergue para dar uma volta, em Belgrado, Sérvia. Inglês, branquelo e com cara de nerd, é magrinho e ruivo.

Já o grego, tessalônico, que trabalha no albergue é um brutamontes comparado a ele, todo errado, descalço sempre, com umas camisetas tamanho muito menor do que deveriam ser, coçando a barriga e falando merda num inglês macarrônico. Um homem das cavernas versão hostel.

Continuar lendo

Os monastérios suspensos de Meteora

O que fica na Grécia e não é ruína, protesto, praia, iogurte ou ilha? Muita coisa. Bem, Meteora entra nessa lista. Apesar de um lugar de beleza única, é pouco frequentado por turistas do exterior, em comparação ao restante do país.

Meteora tem esse nome justamente porque está “suspenso no ar”, “no meio do céu”, mesma origem da palavra “meteoro”. Trata-se de uma cadeia de montanhas esquisitas com um dos maiores e mais importantes complexos de monastérios da Igreja Ortodoxa. A comunidade de monges que se estabeleceu ali desde o século IX, com os primeiros monastérios sendo construídos nos séculos XIV, teve a grande ideia de fazer as construções em lugares absolutamente inacessíveis: bem no alto dessas montanhas, como proteção às invasões otomanas (turcas).

Continuar lendo

Meu jeito de viajar

Viajar pode ser a maior prova de fogo antes de um casamento. Uma viagem pode revelar os hábitos mais estranhos, os medos mais profundos, as manias mais bizarras.

Por razões de Google Tradutor, não posso revelar nomes nem muitos detalhes, mas faz pouco tempo, conheci uma mulher que viajou por longos períodos em sua vida e estava começando uma nova empreitada. Entregou-me um cartão de visita. Rosa. Lá, constava seu nome, um endereço de um blog e a assinatura: “espiritualidade + viagem = alquimia do ego“. Conversas interessantes e bom humor nos fizeram passear juntos pela cidade. Mas eu ia embora em um ou dois dias.

“Posso ir junto?” – franzia a testa, o rosto angulando lentamente.

“Claro!” – nota mental: nunca mais repetir instantaneamente essa resposta.

Continuar lendo